Friday, August 19, 2016

As quatro estações e o medo da escuridão

Ontem o Rodrigo comentou que era o segundo dia em que eu tinha acendido velas em casa. Logo nos demos conta de que já está escurecendo bastante. No verão, a luz dura até depois das 21 horas, os dias duram tanto que as pessoas vão à praia depois do trabalho, você nem lembra da existência de velas. Mas começa a escurecer e vai surgindo o instinto de manter a luz, mesmo que seja através de pequenas chamas espalhadas pela sala.

Para acender velas pequenas, um mercado de Natal de Dresden.

Minha primeira estação no hemisfério Norte foi o inverno. Nós chegamos em Dresden em dezembro de 2013, duas semanas antes do dia mais curto do ano. Estávamos no centro da cidade, a um passo dos deliciosos mercados de Natal, eu nunca tinha estado em um lugar tão frio (tive que sair para comprar casaco, toca, luvas, logo que cheguei!), enfim, tudo era novidade. Eu sentia a diferença, claro, mas não de forma negativa. Era, como o resto, novo para mim.

Na verdade, naquele primeiro inverno, eu achava até legal a noite chegar e durar tanto. Ficava com a sensação de que o dia como um todo - não apenas as horas de luz - era muito mais longo. Anoitecia e ainda demorava para chegar a hora de dormir.

Decoração em madeira à venda no Mercado de Natal.

O teto das barraquinhas no Striezelmarkt é sempre enfeitado, cada uma do seu jeito.

Esse céu azul lindo (risos) foi em um dia às 9 da manhã.

Rodrigo em um dos mercados de Natal (são vários!).

Em março, chegou a primavera e foi a coisa mais incrível que eu já tinha visto. Eu ainda lembro do primeiro dia quente e de céu azul, as folhas verdes e flores brotando. Toda primavera aqui é linda, mas a primeira é inesquecível. Dá uma sensação de leveza poder sair sem se paramentar com casaco pesado, botas, luvas, toca, cachecol. Em Dresden, faz muito frio no inverno, chegamos a passar uma semana com temperaturas de -10 a -12oC, a diferença é marcante.

Na primavera também retornam os sons. Passarinhos e outras criaturinhas que não enxergamos enchem as ruas de som. O inverno é silencioso, mas nem nos damos conta. É quando o som retorna que percebemos o quanto estava ausente.

Flores surgindo em março.

Verde inacreditável das folhas novas chegando (foto sem filtro!).

O céu azul. 
O verão chegou em junho e foi de matar, muito quente. Nosso apartamento, ainda por cima, pegava o sol da tarde. Era um calor sem fim que nem à noite passava. Melhorava de madrugada, durava algumas horas pela manhã e logo o sol batia em cheio nas janelas. Tudo isso sem ar condicionado.

No segundo verão, na verdade o segundo começo de verão, porque viemos para Seattle no fim de junho de 2015, eu já tinha ficado mais esperta. Percebi que o ideal era deixar as janelas e cortinas fechadas o dia todo e só abrir quando estivesse fresco lá fora. Eu esperava até a temperatura externa estar sensivelmente menor do que a de casa e abria a casa toda. Quando acordava, fechava tudo outra vez. Foi infinitamente mais tolerável do que no ano anterior.

Sentar em um Biergarten perto do rio ajuda a refrescar no verão.

Crianças aproveitando.

Quando o outono vem chegando, a sensação térmica é boa. É também fascinante ver as árvores mudando de cor de uma hora para a outra e, depois, perdendo as folhas também muito rápido. O chão coberto de folhas coloridas é lindo demais. Eu fiquei fascinada com as cores vibrantes. Apesar de já ter visto em fotos, ao vivo é muito mais incrível. Chega a parecer que as folhas são de mentira.

Mas junto com o outono vem chegando a escuridão. Os dias ficam mais curtos muito rápido e a cada esfriada você tem certeza de que o inverno chegou para ficar.

Folhas de um amarelo vivo.

As vermelhas chegam a parecer de mentira.

O segundo inverno não é tão fácil. Não é por causa do frio, com o qual você acostuma rápido tendo as roupas adequadas (esqueça os casacos do Brasil!). É a escuridão. Essa é implacável. Você pode estar quentinho na sua casa com aquecimento central, pode até acender várias velas, mas a escuridão vai te engolir no que antes você vinha chamando de fim de tarde. Quatro da tarde é noite.

Pelo menos para mim, no segundo inverno já não parecia tão importante ter uma noite longa, eu preferiria ter as horas de luz de volta.

O dia seguinte custa a chegar, só lá pelas 9 da manhã. Quando eu tinha aula de alemão às 9, saía de casa no escuro da noite. É difícil não se sentir pelo menos um pouco desanimado, às vezes muito.


Mas quando faz um dia frio de doer, com céu azul e neve, dá vontade de ter meses e meses de inverno. (Todas as outras fotos foram feitas me Dresden, esta foi em Berlim)

Hoje está tão quente que eu precisei vir para o lado da casa em que não bate sol para não derreter - aqui também não temos ar condicionado. O fim-de-semana promete ser mais quente ainda, um calor que não fez o verão inteiro. Uma parte de mim quer reclamar, mal acostumada com o verão ameno de até então. Mas a maior parte de mim está com receio de perder 46 minutos de luz em duas semanas.

Mas, como diz o ditado, o que não tem remédio... Enquanto a escuridão não chega, vou aproveitando os dias de sol e luz que ainda temos este ano.

As estações aqui em Seattle são diferentes, o clima é mais ameno. Esse é meu segundo verão, a primeira estação que estou "repetindo". Outro dia, escrevo mais para vocês sobre como é o clima daqui. Mas as horas de luz, essas são praticamente as mesmas.

Vocês já passaram por um inverno com poucas horas de luz? Como foi? Compartilhem comigo, eu vou adorar saber!


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2 comments:

  1. passamos, contigo, diferente de um verão que ia até 21:30, o dia acabando pelas 15, 15:30 foi bizarro, o corpo automaticamente pensa em cama, casa, cobertas, acho que só se acostumando pra tentar curtir a vida como se fosse outro dia qualquer.

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    Replies
    1. Sim, vai acabando a luz e o cérebro automaticamente vai para o modo "acabou o dia, tchau!" hehe

      Acostuma de certa forma. Tu te obrigas a fazer as coisas porque senão não faz mais nada de tão curto que o dia é. Mas acho que todo mundo fica só esperando a luz voltar.

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