Tuesday, March 22, 2016

Um cheiro e uma infância inteira

Hoje o dia está bem agradável. Sol, vento leve e frio, temperatura de 11oC. Quando o dia está assim, sempre aproveito para dar uma caminhada mais longa com os cachorros. 

Quando estávamos em uma área mais aberta, senti um cheiro leve de cigarro. Sabe quando o cheiro vem de longe, já bem mais fraco do que quando a pessoa está fumando do nosso lado? Assim. Essa combinação de sol, ar fresco e cigarro me leva, toda vez, de volta para a infância e os meses que passávamos na praia todo verão.

No dia seguinte ao Natal, já estávamos com os carros cheios de malas e mantimentos. Na praia, tudo era caríssimo, então o pai e a mãe levavam o quanto fosse possível de casa. Precisávamos escolher muito bem os brinquedos e presentes para levar junto, porque não sobrava muito espaço. De qualquer maneira, eles acabavam esquecidos até os dias de chuva, quase intocados o verão inteiro.

Com a mãe, ainda em casa.

A viagem era uma ansiedade só. Passávamos o tempo inteiro perguntando se já estávamos chegando e recebendo respostas pacientes do pai, com o nome de cada cidade por onde estávamos passando, e gradualmente mais impacientes da mãe, de que ainda faltava muito. Como era bom chegar e sentir o cheiro do nosso apartamento, onde eu adorava tudo, a minha casa do verão. Gostava até dos colchões quase tão finos quanto dormir no estrado, instalados no nosso beliche, onde dormíamos ouvindo o mar.

Nós acordávamos cedo - ou o que me parecia cedo - e quando íamos para a praia ainda estava um pouco frio. Lembro de ficar um bom tempo brincando na areia antes de poder entrar na água sem ser desconfortável. Também caminhava com a minha mãe nessas horas. Ela gostava de ir até o fim da praia - não era muito longa - e voltar antes de começar a se bronzear.

Quando voltávamos da caminhada, o sol já estava bem mais forte e meu irmão e eu, junto com nossos vizinhos, íamos para o mar. Depois que entrávamos, era como um cabo de guerra para nos tirar de lá. Cansei de torrar o nariz todo por não voltar para reaplicar o protetor que, na época, era o Sundown com FPS 8. 

A mãe desses nossos vizinhos era a responsável - ou a principal - pelo cheiro de cigarro sempre se espalhando pela ar. Ela fumava logo cedo e também passava um óleo bronzeador que a deixava com uma cor linda, embora minha mãe já dissesse então ser péssimo para a pele. Nossos amigos, os filhos dela, eram todos meninos. Um deles tinha mais ou menos a nossa idade e os outros dois, gêmeos, eram um pouco mais novos. 

Nós pássavamos a manhã, até o horário do almoço - já não lembro qual era o horário, se é que um dia soube - na praia. Almoçávamos em casa, praticamente não existiam restaurantes na praia. E, claro, na época restaurante era uma coisa de fim-de-semana ou ocasião. O almoço era quase sempre a mãe quem fazia. Comíamos muitos frutos do mar comprados diretamente dos pescadores, era uma delícia. 

À tarde, depois de fazer a digestão e esperar o sol não estar mais tão forte, íamos brincar com nossos amigos. A brincadeira podia ir desde ficar na casa um do outro (mais chato) até montar uma jangada com bananeiras para brincar de sobreviventes no mar (incrível!). Eles também tinham muitos botes e pranchas de "morey boogie" e nós chegamos a juntá-los em algum tipo de embarcação e remamos até uma praia deserta para fazer um piquenique.

Outra atividade bem comum nesses nossos dias de verão era andar nas pedras com o pai. Nós andávamos muito, íamos longe e passávamos várias horas fora. Desde pequenos fazíamos isso e também novinhos já ouvíamos o pai dizer, toda vez que tentávamos nos apoiar com as mãos, "Andem com os pés, vocês não são macacos!". E aprendemos a andar com os pés, mantendo o equilíbrio e pulando de pedra em pedra. Usávamos as mãos só para escalar paredões que, hoje em dia, eu não teria coragem de chegar perto. 

Uma vez, fomos bem longe, até uma praia ainda mais vazia do que a nossa. Estávamos morrendo de sede e o único barzinho aberto tinha, de mais leve, apenas Keep Cooler. O pai acabou telefonando para a mãe nos buscar de carro. 
 
Com o pai, na praia.

Se não chovesse, nós íamos para a praia praticamente sem exceção e seguíamos estas rotinas com poucas alterações. Poucas vezes, eu tentei ficar em casa, meio enjoada da praia. Acabava sempre com a sensação de estar perdendo alguma coisa e mudava meus planos. Deixava para os dias de chuva o meu enjoo e nunca me arrependia. 

Nossa televisão era pequena, preto e branco, e tinha apenas a antena comum. Alguns dos nossos vizinhos tinham televisão com antena parabólica e, poucas vezes, assistíamos alguns desenhos animados com eles. Em casa, a única programação que me lembro de acompanhar eram os desfiles de Carnaval. A música, pelo menos, porque o desfile em si era a mesma dança de chuviscos de sempre. 

Assim como o Natal marcava o começo dos melhores meses do ano, o Carnaval marcava o fim. Era hora de voltar para a cidade, comprar o material escolar (algo que eu sempre adorei fazer) e começar as aulas na quarta-feira de Cinzas, porque estudávamos à tarde, quando não é mais feriado. Também era hora de rever os brinquedos e presentes, era como finalmente encerrar o Natal.

Dentre as memórias da minha vida, estas são das mais queridas. Lembro da praia, do nosso apartamento, das nossas brincadeiras, caminhadas e passeios com muita saudade e carinho. Até hoje, férias são, para mim, ficar perto do mar e dormir ouvindo o som das ondas. 






4 comments:

  1. Amei o texto.. quantas lembranças!! As minhas preferidas são das Páscoas.. possivelmente por causa da morte do pai ter sido perto do natal, e na praia. Pra mim, Natal é sempre uma época triste. Mas praia é tudo de bom, sempre! :) Beijos!

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    1. Que bom que gostasse, Adry! São ótimas lembranças, mesmo.

      Eu sempre gostei mais do Natal. Sempre eram vários e todos estavam reunidos. Era muito bom! Depois que a mãe faleceu também perdeu para mim um pouco o encanto e ainda não consegui recuperar 100%.

      Beijos!

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